MOTEJO
Não encontrei,
Já é muito,
Os fiz abandonar,
Agora venha sem cargas.
Não há palhas,
Nem cascas,
Colha o grão seco dos galhos ociosos,
E ocupe-se com palavras vãs.
Nada diminuiu,
Nem o restolho se espalhou,
Apanhei-o como jóia acabada,
Enquanto a aflição veio ao avançar da noite.
Julguei as mãos vazias,
A culpa abandonada,
Ontem foi apenas outro dia...
Os braços estendidos,
O nome marcado,
Nenhum som aos ouvidos,
Nem sangue nos lábios,
No torpor ficou claro,
O que as moscas haviam dito.
DUREZ
Ouvirei aquela palavra,
E me sentirei morto,
Como um corpo conservado no gelo,
A alma intacta não se alui,
Insensível como ouvidos moucos,
Ao troar da lima no metal?
Quantas vezes ainda,
A espada me ferirá,
O sangue a jorrar anêmico,
Jaz-se em poça, se esvanece,
E nem mancha forja?
A quantas vezes,
Irei tropegar,
Qual velho a mover-se no pântano,
A resvalar a ponta do dedo,
Em algo que julga bálsamo,
Mas sequer pode-se entrever?
Dores a fustigar;
Entre golpes acolhidos,
A pasmar a consciência suína,
Não é ainda o nocaute...
Nem o espírito sepultado.
LINEAR
pela ciência e não-ciência,
andando em círculos nos
problemas, que volta e meia
retornam, como placebo ineficaz
para a morte sem solução.
Não, os peritos obstinados não sabem,
não há unidade sem padrão,
nem descoberta sem valores fixos,
e nas contingências ambientais desejadas,
o homem é destituído de quilate
como qualquer animal domesticado.
Sem o contato com a realidade,
é-se transportado para um mundo
paralelo, onde a fronteira última
não é a verdade mas a refletida
obscuridade dos efeitos irreais,
onde o resultado a qualquer custo
é o caminho transtornado do
homem endeusado, sem cura.
O homem do homem está perdido.
E somente por Deus pode ser achado.
Porque o homem de Deus está
preparado adequadamente,
no alívio do padrão divino de
santidade, em que as sombras
são quebradas pela luz, como
cacos reconstruídos à sua imagem.
O templo de angústia,
como fumaça, se dissipou.
E as relíquias, destruídas.
O homem reformado,
vaso em molde novo,
é como curva regenerada,
linear, não se quebra jamais.
ANULAR
MORTOS E VIVOS
não ganham vida.
PERDAS E GANHOS
O domínio do pecado,
e a razão para acreditar não está no indivíduo
nem nos efeitos da vontade,
mas diante da verdade que se tem ouvido,
pode-se entendê-la até as raízes da fé
Ao ouvir palavras de vida,
quando ainda estava morto,
antes mesmo de existir,
seu lugar estava reservado
na unidade do corpo.
repousar na esperança,
sentir a vida até onde for trazido,
no princípio, no meio e no fim,
como se já estivesse longe
perdido no fundo do coração
sem o direito ao perdão divino
a dispor as coisas lado a lado
num último pensamento forjado:
Enquanto se morre.
Pai
o Deus triuno
escolheu a sua família
antes da fundação do mundo.
E me chamou pelo evangelho,
escolheu-me sempre em Cristo,
para alcançar a sua glória.
fui impelido, e assim, quis.
O pouco recolheu o muito
O vigésimo sombreou o quarto
O sétimo não é o oitavo
que se via e não se tocava
Daqui a pouco
Se alguém pejar o nono
Céu e terra ordenados
O tempo não se fatiga,
jamais dorme ou descansa,
nem precisa de auxílio,
não usa bengala ou
se deixa carregar na maca,
ou se lança inerte à cama.
É como o curso d'água
no leito do rio,
a irromper constante,
mesmo caudaloso
a nos apressar,
mesmo minguado
a nos reter.
Onde os passos apressados
não combinam,
onde o estancar teimoso
não pode se partir.
O tempo é uma ponte
que nos leva da fonte
à foz,
as vezes em arroubos,
noutras, complacente,
a escavar barrancos,
erguer trincheiras,
a cortar o sopé do lugar escarpado,
derribar os limites reservados,
separar o barro,
misturar os detritos amontoados.
O tempo carrega montes e vales,
vida e morte,
o perdido e o achado,
o pronto e o inacabado.
Há espaço para o que se foi,
para o que está presente,
e ao que ainda não veio.
É o fluído estanque
na botija,
de onde a torneira jorra,
incapaz de saciar a aridez
do sedento.
Não se pode tê-lo
nem querer mais.
Fartar-se: o sinal de que
o tempo já chegou.
Avidez, pode ser o sinal de
que ele está a fugir.
E não resta mais,
tempo.
A vontade livre,
livre da vontade,
no vazio e o nada,
deixada ao acaso,
sem base,
como se ter vontade?
A liberdade de não ser,
nem poder se ter,
a vontade não subsiste
sem influência,
sem influência não há
vontade,
sem vontade não há
responsabilidade,
a sorte nega as duas,
e as duas negam a sorte.
Ainda assim,
há a vida e a morte,
na vontade e na sorte.
Deus controla as duas,
e tudo o que representam,
seja o início e o fim,
por sua vontade.
AVISO
Aviso: não siga!
Estanque.
Volte.
Mas não olhe para trás.
Pise o mesmo caminho,
do qual dantes quis fugir,
aonde corriam as pernas,
e o tremor levantava poeira.
Aviso: não siga!
Nem em vinte dias,
nem ontem ou amanhã,
ou nos próximos cem anos.
porque os amigos perderam-se
no instar da bocada a
devorar o cachorro-quente,
e a Coca-Cola não conteve o esgar.
Aviso: não siga!
É Deus livrando-o.
Mesmo que ele não seja assassino,
mesmo que o celular não toque novamente,
nem lhe devolvam o sono desviado,
e a violência serene.
Mesmo que não entenda o seu riso,
nem o nervosismo a contrair-lhe a face,
e sejam restituídos os minutos preciosos em tempo.
Aviso: não siga!
Não é uma advertência,
mas uma ordem.
Não é provável,
mas certeiro.
Não é impossível,
mas para que não aconteça o iminente.
Não é o delírio.
Aviso: não siga!
Porque Deus não escreve
certo por linhas tortas.
Ele escreve, certo!
Não é um aviso.
Aconteceu.
Para que a surpresa
Não lhe pegue imprevisto,
e o aviso não seja
o repentino epitáfio
entre as lágrimas chorosas
dos que o amam.
Aviso: siga-O.
FATAL
Gravemente pecou;Chorou as lágrimas solitárias na noite inimiga,
A festa era porta fechada onde habitava a aflição,
E os suspiros desolados do errante repousavam nos caminhos tortuosos e devastados,
Onde o socorro não alcança, onde o fim não é lembrado.
As mãos folheavam o álbum, os retratos de tempos antigos,
O papel exaurido e as cores desbotadas pareciam zombar da ruína em que se tornou.
Gravemente pecou;
O pão, a nudez, o ouro no pescoço, a beldade, eram o troco da alma declinada,
Os ossos esmagados, a carne enfermada não podia mais comprar,
Nem mesmo adubar a grama, nem afastar a cerca ao redor.
A armadilha presa aos pés, avalanche sobre a cabeça,
Velhos mortos desatavam águas dos olhos, jovens convocavam a derrota na última batalha,
Vestir-se de trapos enquanto as luzes expiravam sorrateiras,
E a treva revolvia as entranhas como o fogo consome a lenha úmida.
Gravemente pecou;
A semente rejeitou a terra,
Mães arrastaram filhos pelas ruas,
A boca cuspiu fora os dentes,
No assobio, cabeças meneadas chocaram-se com muros,
E não se podia escapar da última palavra: a loucura não sara.
Multiplicou-se a ira de Deus,
Deu solenes gritos ao ver o lugar destruir-se,
Gemeu diante do esforço vão de quebrar os grilhões,
Devorou o dia pensando na noite, entrou por onde jamais sairia,
Guiou-se como alvo às flechas, fez um prato fundo de areia e lodo,
Escondeu os ouvidos da sinfonia como se esmigalhasse o único troféu.
Gravemente pecou;
A vida pulverizada como metal limado,
Esperar razão quando sobrevêm amarguras,
Põe a língua no pó, persiga as nuvens no céu,
Não se deixe fugir da morte, e ponha-a a salvo depressa,
Pois o castigo espreita, prestes a abater a caça implacavelmente.
Polir o lixo, a culpa não pode ser aplacada com uma desculpa.
Gravemente pecou;
Desviou-se, fugiu, andou lentamente erradio, perseguiu ciladas,
A pele presa aos ossos como cão vadio, sem dono,
Foi-lhe posto o último fôlego, o negrume a vaguear como cego tocando o vazio,
Debaixo da sombra viu covas enfileiradas, nunca mais se morará ali,
Serviu-se o alimento, e água suficiente para acabar com a sede,
Porém, contaminado pelos seus pecados, cumpridos os seus dias,
Consumiu-se no fim como a descobrir uma recompensa... que não chegou.
Gravemente pecou.
Não há muito o que dizer quanto a isso,
nem muito com o que se preocupar,
em certo sentido a necessidade repousa sobre
o alicerce incoerente, em que o eclético pode
estar em um ou outro lado da ponta,
pode estar reunido ou separado,
e ainda que não pareça funcionar,
e reflita a mentira mais obscuramente recuperada,
é como o alicerce erguido inadequadamente
no pântano.
Diante do arcabouço das escrituras nenhuma
mentira pode ser desenterrada, nem a verdade
pode-se enterrar, a menos que o eclético seja
posto de ponta-cabeça, a juntar os retalhos
como numa colcha prestes a se rasgar.
Deus tem dado a resposta.
EVOLUÇÃO
Faltam tábuas suficientes,
faltam pregos necessários,
há tábuas sem pregos,
pregos sem tábuas,
martelos sem cabeças,
cabeças sem cabos.
Nunca suficientes.
Há pregos tortos,
e tábuas tortas,
e martelos leves demais.
Tudo imprestável.
Outros são tão pesados que
se é impossível levantar.
As serras não têm dentes,
puas não realizam furos,
e as brocas são planas,
enquanto as chaves não torcem as fendas,
nem as lixas alisam as crostas.
Mas todos esperam
por mesas e cadeiras,
e elas o marceneiro,
que ainda não foi concebido.
MODELO
O oleiro e o barro,
o barro espera o oleiro,
a água a lavar o barro,
enquanto o barro a esperar o oleiro,
enquanto o vaso espera o barro,
e o vendedor a esperar o vaso,
enquanto a flor agoniza nas
mãos do oleiro.
Que não amassou o barro,
não fez o vaso,
apenas arrancou a flor,
porque todos disseram
que era advogado,
enquanto esperavam o oleiro.
CABER
Frio,
Pés em modorra,
O silêncio,
A contemplar as pás girar.
Latido,
Revolve as tripas,
O sentido,
A latejar as pontas dos dedos.
Risco,
Lança-se ao desperdício,
O sonido,
A empilhar calafrios.
Rude,
Fustiga a pedra solta,
O sólido,
A fragmentar-se no moedor.
Freio,
Pedágio em terra estéril,
O sino,
A roer o osso.
Livre,
Rende-se à dor infinita,
O sono,
A fatigar em penas.
Inferno,
Não é apenas o torpor dos delírios.
METÁFORA
Vi a aflição estampada em seus rostos,
os dedos claudicantes a tentar pegar objetos aleatórios,
como se pensamentos não imaginados pudessem
erguer colunas, levantar paredes, decorar palácios,
encher os palcos.
Vi a aflição estampada no meu rosto,
a impossibilidade de se mover qual caça aprisionada,
como o condenado a morte pode
apenas contrair os músculos e retorcer a pele
durante a execução, enquanto o nariz permanece
gelado, e as mãos suando frio.
Vi o sol escurecer, e as trevas se ocultarem,
enquanto tateava o vazio distante da luz.
Vi suas carnes envelhecerem,
pele e ossos quebradiços, a exalar um cheiro doente
de que embaixo dos escombros não havia sobreviventes,
e os mortos cercavam-se nos lugares tenebrosos.
Vi os caminhos obstruídos por avalanches,
mercenários aguardando de tocaia.
Nos esconderijos possíveis não se pode entrar,
errante nas ruas desertas, os olhos não seguravam
as mãos vazias, nem os velhos guardavam as
crianças nos colos, pois as atenções se voltavam
para as prateleiras vazias do supermercado.
Vi os desdentados rirem-se ao passar,
somente eu ouvi, porque o povo cantava uma marcha
fúnebre embriagado no próprio desespero.
Uma canção alegre os levaria à loucura; a brisa
suave os queimaria como gravetos na fornalha.
Vi o choro, e recordou-me a infância,
quando chorar era possível, recuperar o
fôlego era possível, a alegria era possível,
até mesmo engasgar era possível; havia esperanças,
e a força não se dissipara; nem todos os dentes
haviam sido arrancados da boca.
Vi suas almas combalidas, enfermas,
embaladas pelo silêncio solitário,
aguardando as bocas se encherem de poeira;
por uma palavra, o orgulho derribado.
Entendeu-se o bem por mal,
de bom grado, o mal foi-lhes por bem,
debaixo dos seus pés estavam as palmas
que festejaram a traição, enquanto cabeças meneavam,
e o cativeiro era o descanso de si mesmo.
Não se sustenta o coração tomado à força.
Nem os frutos roubados do ventre.
Ou o perdão entregue por ira,
se o suspiro não serve por pagamento da dor.
Aminha cabeça posta ao laço,
vi-os verem-se, a julgar a minha causa
como se obra das suas mãos, da mesma forma
que se negou o pão ao faminto e leite ao
filho convalescente.
Por sua causa não ouvi meus pensamentos.
A música os silenciara antes mesmo de
se levantarem ou assentarem.
Vi.
Vi,
novamente. Revi.
A figura capturada entre as pálpebras.
O sentido naturalmente desfigurado.
Uma metáfora no lombo do caranguejo.
Onde a vergonha corrompeu o silêncio,
igual a razão morreu a pauladas.
ENCURRALADO
Encurralado, a vergonha bate à porta, como um sinal sem resposta,
Uma explicação sem jeito, vazia, inócua, somente o mal a levar-me a efeito,
À desonra que não ignoro, e se esconde nos gritos,
Mas não abafam a dor que inflige, o sofrimento desnudado,
Pois o que fiz divide-me, e as partes colaboram para o temerário,
E a lágrima descuidada, não apaga o dito nem o feito anos a fio.
O torpor camufla-me; na impossibilidade de encará-lo nos olhos,
Desvio-os ao longe, onde não revelem o quanto a minha alma indistinta
Pode refletir-se nas águas turvas da bravata, onde a névoa oculta com traços de civilidade
A fraqueza moral instalada no pecado, os irmãos siameses,
A levar-me ao abandono, ao digladiar insano contra Deus.
O vexame diante da verdade, a olhá-la de esguelha, a esperar o descuido,
Para tomar as rédeas daquilo de mais sórdido construído.
É o canto esmaecido do pardal, a resposta que não vem à tona,
Solapada em toneladas de impurezas,
A desculpa é o favor que me concede continuar por tudo o que passei e não remediei,
O que para trás ficou, segue-me adiante, a fazer-me pior do que fui um dia,
E a chuva a encharcar-me não lava a sujeira e o odor fétido a cobrir-me,
No qual me atolo como um barco encalhado, no refúgio de não poder livrar-me,
Não há como soltar-se sozinho, não há força nem movimento útil,
Apenas é-se capaz de ir mais rápido ao fundo, qual objetivo alcançado,
Restando o grito de desprezo a soluçar em gorgulhos,
O afogar-se no inútil esforço, o descontrole de não ter o escape,
É a desculpa para insistir nos erros.
Já senti isso muitas vezes, passei por isso outras tantas,
Basta seguir o mal levianamente, e ele nos levará a imolar até mesmo o que não temos,
É-nos emprestado, será cobrado com juros, e nos deixará nu como terra assolada,
Nem mesmo as cinzas perdoarão, enquanto reviro-me no mover contra Ele,
Pois não é possível o mundo me absolver, se está a cumprir sua própria pena.
A evasiva não passa de pilhéria, é o medo de não parar até ser arrancado e posto no patíbulo...
O silêncio é o risco assumido, o perigo que não se acaba.
VERBO
O Verbo era,
É,
Será,
Nada pode contê-lo,
Nem os anos passados
Ou vindouros,
Nem a vida
Ou a morte,
Nem a luz
Ou trevas,
Nem o mundo
Ou o vazio,
Nem os filhos
Ou bastardos,
Nem a graça
Ou a verdade,
Nem a fé
Ou descrença,
Nem a glória
Ou a plenitude,
Nem o sangue
Ou carne,
Nem a história
Ou a mentira,
Nem o calor
Ou frio,
Nem o bem
Ou o mal,
Nem os anjos
Ou demônios,
Céu e inferno...
Pois antes de tudo,
Foi sempre.
No princípio
Ou no fim.
Nem a eternidade
É-lhe claustro.