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AMOR

Não é o nome apagado na agenda,
Nem a vela a consumir-se no funeral,
Ou água a esvair-se da pipa fendida;
É muito mais do que cair do cavalo,
Que manter os pés secos na enxurrada,
Cozinhar o galo em banho-maria,
Sonhar tênue em meio à emboscada.

É como erguer uma parede,
Estender a mão ao amigo,
Chorar a dor de quem perdeu,
Andar sem esforço no atoleiro.

Pode durar uma hora ou dias;
Pode arrastar-nos pela vida,
Pode perpassar indelével com o tempo,
Pode ser a carga a nos encurvar.

Cura
Mitiga,
Suporta
Fia.

Conhece,
E faz-se conhecer.

Tem coração,
Tem vida,
É verdadeiro,
É Único.

Seu Nome acima de todos os nomes.

Não há outro,
Diante do qual o amor se curve.

NAVALHA

E continuou
a pedir um sinal
se em cima ou embaixo
pouco importa é verdade
manteiga e mel
antes que saiba
que desde aquele dia
nunca favoreceu os vivos
nem se separou para a luz
e persistiu em assoprar as moscas
e fender a rocha
e cortar arbustos com
lâmina sem gume.

AS LÍNGUAS

Eu abraço-me a mim mesmo
Tu abraça-te a ti mesmo
e nós não nos abraçamos
viramos os rostos
como se nossas almas estivessem
atoladas na lama profunda
ou arrastadas a águas fundas
por correntes impiedosas.


Não cansamos de chorar
enquanto as gargantas secam
e os corpos desfalecem
por que a causa que defendemos
é a que mais rejeitamos
e os amigos que nos cercam
são os inimigos que nos alcançam.


Estranhos, desconhecidos
jejuamos o amor
e saciamo-nos na dor
a resgatar depressa a angústia escondida
como se não houvesse nenhuma compaixão
e achá-la seria o mesmo que se embriagar
de vinagre ou fartar-se na miséria
a compartilhar indignados.


Sem o meu abraço no seu abraço
a semente não herdará a terra
e desejar o mal será o mesmo
que tirar as entranhas e dá-las aos cães
e escorrer por uma longa distância
a lamber o pó cujos rastros as línguas
deixaram sobre a terra.

VIGIA

O que os olhos não viram,
os ouvidos não ouviram quando a língua se calou,
e diante da enxurrada de palavras,
os lábios perseguiram o restolho seco,
a defesa intentou mentiras,
zombou a verdade, 
ocultou o feito, como se espalhar cinzas nas plantas
escondesse o cheiro queimado.
A culpa levada ao vento,
no redemoinho de coisas amargas,
em roupas roídas por traças,
a ordenar a rendição do caos,
e dos meses a raptar segundos,
pois o tempo não tem repouso,
nem a água vive ao longo do rio esgotado,
nem o combate alcança o limite removido.
Por que as pedras se gastam em lágrimas?
E o espírito a despir-se no látex?
O afeto é broto, pó a nascer em ramos,
a lavoura  a exalar o cheiro morto.
O homem nasceu condenado,
a vagar pelo pão diário,
a recompensa pela dor que não cessa,
a fim de agarrar a sombra em noite sem luar.
Lançou-se aos pensamentos, 
sem nenhum esconderijo.
Apenas o túmulo a vigiá-lo.

SOBERANIA

Pode Deus ter inimigos?


Criaturas não-eternas não podem vencer o Eterno. 
Criaturas não-infalíveis não podem vencer o Infalível. 
Criaturas não-soberanas não podem vencer o Soberano. 
Criaturas não-santas não podem vencer o Santo.
Criaturas não-perfeitas não podem vencer o Perfeito.
Criaturas finitas não podem vencer o Infinito.


Em todos os aspectos, satanás e os réprobos estão derrotados, 
antes mesmo da fundação do mundo; 
na verdade, foram criados para a perdição eterna, 
a derrocada inevitável, sem qualquer chance de triunfo.


Pois tudo, mesmo o mal, está diante dos seus olhos,
eternamente.


Ontem, hoje, sempre.

PRIMÁRIO

Contínua procura da ordem,
atrás de cada resposta adequada,
por longos caminhos sem distâncias,
onde a humanidade atingiu a vida
com o golpe de quem no lugar da morte
transmitiu dúvidas.


Onde começa o homem e termina o espírito?
Ou o espírito é a gravidez com dores a
parir o homem? E o dá a conhecer?


Ninguém se esforça em elogios,
o silêncio é vagar, sem lugar onde
amigos íntimos lançam ataques suicidas,
em previsões mais graves do que curtas,
no breve intervalo do coro alternado, 
aberto em ondas mecânicas longitudinais,
que não se pode escapar sem antes
queimar as partes condenatórias.


A mão misteriosa é a que, antes de tudo,
inflama as palavras para o que não era
não seja mais, 
e o diagnóstico precoce não cure as dores.


Permanece. Impossível.


Para o bem real enquanto diminui o
imaginário de existir, como uma pequena
parte do que não se foi inteiramente 
capaz de viver.


Em todos os lados, em todas as direções,
as coisas cheias esvaziam-se,
as maiores, sumiram,
de onde vem, não vem outra,
a parte infinita já não é nem
a parte do que se pode ser.


O pardal não voa mais,
receoso de encontrar o lugar 
em que se cai.

RASTRO

E também houve
E também negaram
E também trouxeram palavras fingidas
E também a sentença não tardia
E também espalham suas nódoas
E também o vento a arrastar nuvens no tempo.

Contadas razões
Obra injustificada
Ninguém a escapar
Anunciam-se coisas antigas
Enquanto se tem por testemunha
o estranho tardiamente amigável.

O lugar desconhecido
Dias como pó a varrer o sul
Entre os que partem depois de vir
No que falta não se pode calcular.

Porque as coisas tornam a correr
Antes de morrerem desembestadas
Porque os olhos fartam-se de ver
O lugar cheio de nada
Porque os circuitos dão meia-volta
A guardar o que se lançou fora
O fôlego espalhado nas pedras ajuntadas
nas valas de resíduos tóxicos.

Houve antes a aflição
A que em outros se instalou
Loucura a cavalgar em trevas
A buscar uma porção do mal.

A noite não descansa enquanto
o sol estiver a pino,
Morre o sábio, morre o tolo,
E o homem esquecido
como a paz perdida na guerra.

E também durará eterna,
Se nada se acrescentar,
ou se tirar.


MOTEJO

Não conheci,
Não encontrei,
Já é muito,
Os fiz abandonar,
Agora venha sem cargas.

Não há palhas,
Nem cascas,
Colha o grão seco dos galhos ociosos,
E ocupe-se com palavras vãs.

Nada diminuiu,
Nem o restolho se espalhou,
Apanhei-o como jóia acabada,
Enquanto a aflição veio ao avançar da noite.

Julguei as mãos vazias,
A culpa abandonada,
Ontem foi apenas outro dia...

Os braços estendidos,
O nome marcado,
Nenhum som aos ouvidos,
Nem sangue nos lábios,
No torpor ficou claro,
O que as moscas haviam dito.


 

DUREZ

Por quantas vezes,
Ouvirei aquela palavra,
E me sentirei morto,
Como um corpo conservado no gelo,
A alma intacta não se alui,
Insensível como ouvidos moucos,
Ao troar da lima no metal?

Quantas vezes ainda,
A espada me ferirá,
O sangue a jorrar anêmico,
Jaz-se em poça, se esvanece,
E nem mancha forja?

A quantas vezes,
Irei tropegar,
Qual velho a mover-se no pântano,
A resvalar a ponta do dedo,
Em algo que julga bálsamo,
Mas sequer pode-se entrever?

Dores a fustigar;
Entre golpes acolhidos,
A pasmar a consciência suína,
Não é ainda o nocaute...
Nem o espírito sepultado. 


LINEAR

O homem se debate e bate
pela ciência e não-ciência,
andando em círculos nos
problemas, que volta e meia
retornam, como placebo ineficaz
para a morte sem solução.

Não, os peritos obstinados não sabem,
não há unidade sem padrão,
nem descoberta sem valores fixos,
e nas contingências ambientais desejadas,
o homem é destituído de quilate
como qualquer animal domesticado.

Sem o contato com a realidade,
é-se transportado para um mundo
paralelo, onde a fronteira última
não é a verdade mas a refletida
obscuridade dos efeitos irreais,
onde o resultado a qualquer custo
é o caminho transtornado do
homem endeusado, sem cura.

O homem do homem está perdido.
E somente por Deus pode ser achado.
Porque o homem de Deus está
preparado adequadamente,
no alívio do padrão divino de
santidade, em que as sombras
são quebradas pela luz, como
cacos reconstruídos à sua imagem.

O templo de angústia,
como fumaça, se dissipou.
E as relíquias, destruídas.

O homem reformado,
vaso em molde novo,
é como curva regenerada,
linear, não se quebra jamais.

ANULAR

Quem inventou o medo,
não desmaiou outra vez,
nem se incomodou que a loucura
o interrompesse, 
enquanto tomava o café da manhã
fumegante,
e partia os ovos levemente duros.

Por sorte
ninguém o esperou até agora, 
então se correr com as ataduras 
soltas,  cuidado!
Pode-se cair, e quebrar o pescoço.

É como soluço em copo d'água,
esconderijo em praça pública,
o rigor das respostas às perguntas
malfadadas,
correr-se o risco dos pensamentos
fragmentados,
na medida dos erros exatos,
na obstinação mais próxima da
refrescante ignorância.

Para que o corpo seja entregue,
e aqui enterrado com todas as
honras.
E não se negue o contado,
porque sempre haverá mais
alguém, em última instância, 
a recusar o tempo.

Depois de tudo, 
sabe-se pouco, 
porém a ignorância não será eterna.
Por isso, espera-se tal qual os
indicados,
que as explicações anuladas
não resistam à última palavra 
predita.


MORTOS E VIVOS

O corpo no esquife faz
lembrar que as pessoas mortas
parecem vazias,
como se sentissem falta de algo,
seja da alma onde sobra apenas
o corpo,
ou do corpo de alma renegada,
sem vida e abandonada.

Morrer não é possível quando
já se está morto;
e aos mortos não é dado o
direito à vida, se Deus
não os regenerar.

Se o velho não se fizer novo,
e não for enterrado
eternamente,
o morto não pode ressurgir,
pois Deus é dos vivos,
enquanto os mortos, 
não ganham vida.



PERDAS E GANHOS

Que se viva como um eleito,
co-herdeiro de Cristo,
e a segurança: o estímulo ao trabalho,
não a aposentadoria compulsória,
na morte prematura de quem 
negligencia-a e não foi escolhido.

Pois se esperam coisas melhores,
que acompanhem a salvação,
na obra inesquecivelmente realizada
e nos dada por amor de seu nome.

Sempre incapaz de produzir a
nova natureza e semelhança,
que não depende de esforços,
ou da vontade, dom, exercício,
se ele não a fizer, nada que se
faça resultará no bem pretendido.

A minha graça te basta,
o meu poder se aperfeiçoa na
fraqueza, seja então eu fraco
para o seu poder em mim habitar,
e a sua vontade prevaleça.

As perdas são precisas,
que eu diminua e ele cresça,
por que se os atrativos do mundo
não forem abandonados e esquecidos,
as promessas são para os outros,
não são minhas, nem delas participo,
nem o verei como é.

Considerei tudo como esterco,
para quando se manifestar,
ser como ele,
predestinado à herança de me conformar
à imagem do primogênito de muitos,
e ganhá-lo pelo que se perdeu
definitivamente.

ANTES, DEPOIS

[1]

O domínio do pecado,
na liberdade de não ser livre,
enquanto se sujeita à morte,
como fruto podre da velhice.

Não se vive o tempo longínquo,
em suspeitar o outro espreitá-lo,
a muito se aprovou o que não fez,
e censurou o que não foi feito,
o bem como sinal de que virá depois,
quando o homem vendido no pecado
for no sangue reavido.

Miserável homem!
Que na vida não se livrou da morte,
tem o mal como companhia constante,
como sitiado por inimigos de batalha,
preso como coisa esquecida
na consciência imperceptível da carne.

[2]

A pregação não pode menos que a ordem,
a doutrina não pode menos que a palavra,
e a razão para acreditar não está no indivíduo
nem nos efeitos da vontade,
mas diante da verdade que se tem ouvido,
pode-se entendê-la até as raízes da fé
uma vez comunicada pela graça.

Ao ouvir palavras de vida,
quando ainda estava morto,
antes mesmo de existir,
seu lugar estava reservado
na unidade do corpo.

Por alto preço foi comprado,
quando ainda não valia nada.
Andando agora segundo o espírito
não é mais um condenado,
mas co-herdeiro da glória porvir.


NÃO PENSAR
Descansar e não pensar,
repousar na esperança,
sentir a vida até onde for trazido,
no princípio, no meio e no fim,
como se já estivesse longe
perdido no fundo do coração
sem o direito ao perdão divino
a dispor as coisas lado a lado
num último pensamento forjado:
o de não pensar.

Enquanto se morre.


ELEIÇÃO
Desde o princípio
Pai
Filho
Espírito Santo,
o Deus triuno
(impossível para a mente humana),
escolheu a sua família
antes da fundação do mundo.

E me chamou pelo evangelho,
escolheu-me sempre em Cristo,
para alcançar a sua glória.

Por seu eterno e imutável propósito,
fui impelido, e assim, quis.


GALOPE
Não é esse o castigo esperado
A voz que se faz ouvir no topo do carvalho
Os prados  a chorar a seca dos dias
a consumir os palácios,
a retirar os trilhos de ferro e carregá-los por
quatro noites, e depositá-los nas
cinzas da cidade perdida.

O fogo a correr pelos vales
Por três vezes quebraram ferrolhos,
tomaram das mãos as alianças e
deram-nas aos inimigos como a
preservar a honra em conserva.

O calor dilatou-os por três
A dor multiplicou-se por quatro
Na tempestade, os alaridos da batalha
A cal derramada nas feridas, os
ossos queimados.

No meio deles e fora deles
Entre eles e sem eles
Todos e nenhum rejeitaram e
não guardaram a sua lei,
enganados pelas suas mentiras
perambularam desnorteados
como almas em quarentena.

Porque se vende a justiça por qualquer dinheiro
Porque se vende o pobre por um hambúrguer
e se morre de fome suplicando um
pouco de pó sobre a cabeça.

As roupas empenhadas e
manchadas pelo vinho tinto,
são raízes puxadas por baixo da terra,
a tornar moribundos os frutos e as folhas vivas.

A fuga é o cavalo montado,
a galope no precipício.


DIVISOR 
O segundo não é o sexto
Primeiro entremeio a palavra
O sumo veio a tempo
escorrido nas casas forradas
dispersas no deserto
como roupas de várias medidas


O pouco recolheu o muito
A fome se fartou no saco furado
Ninguém se aqueceu na
madeira molhada
Dissipou-se o orvalho, o sopro


O vigésimo sombreou o quarto
No ano dos meses fastiados


O sétimo não é o oitavo
A noite é o dia
Diante dos olhos
o que restou era o nada
que se via e não se tocava


Daqui a pouco
o último será o primeiro
o maior igual ao menor
No lugar cercado de ânsias
a pergunta não tem resposta
Ponto morto


Se alguém pejar o nono
não haverá pedra sobre pedra
nem vinte contra dez
em vez de cinqüenta, doze


Céu e terra ordenados
Pela segunda vez
a figueira não deu frutos
à romeira
Desde o dia em que se fundiu
ao riso dos outros



ADOPTAR
Amei, e não amei
tenho no peito a tristeza e a dor contínua
de que poderia eu mesmo ser maldito e
por amor receberia as suas culpas
ainda que tenha motivos para não amá-los
mesmo que a raiva os transforme em inimigos
e me torne hostil
enquanto os ouvidos moucos desprezarem as
promessas benditas, os olhos forem buracos ocos, e
a língua a difamar a justiça daquele que chama,
não passarão de defuntos em que as velas acesas
as súplicas repetidas, velarão suas mentes mortas, e
de nada adiantará o choro convulsivo das carpideiras
nem o riso ébrio dos inconvenientes
se Deus não se compadecer e restituir-lhes
a vida que não tinham.

Se caíram, quedei-me sem possibilidade de escolha
nos seus pecados participei ativamente
cedi quando não mais resistiram à tentação sofrida
pequei quando não havia a chance de não-pecar
ajudei-os a preservar aquilo que sabiam tão bem
na queda direta que os levaria ao chão
na falsa neutralidade da ordem distorcida.

Estão postos entre o bem e o mal
não conheciam o bem possível, mas
sucumbiram à possibilidade do mal
desconhecido.

Pela não-liberdade escolhida, do ponto de vista
da influência necessária e inevitável
não depende de quem quer ou de quem corre
nem do tempo contado de maneira alguma
mas daquele que tem a promessa, a aliança e a glória.

Para que desse a conhecer as suas riquezas
nos que são seus
para que desse a conhecer o seu poder
para que suportasse com muita paciência
os que não são seus
a destinar uns e outros para os lugares
que dantes preparou.

Mas ele diz:
Manifestei-me aos que não perguntavam por mim
Fui achado pelos que não me buscavam
Para que entre os remanescentes sejam trazidas as
alegres novas de coisas boas.

O inimigo amei como ao amigo
selado pela afeição perene
daquele que estendeu as mãos para
fechar as portas do abismo e trazer-me
dos mortos a Cristo, mesmo nos confins do
mundo, nunca serei confundido.


QUESTÃO
Em quais condições o homem é livre?
De pecar estando livre de Deus?
De não pecar estando livre de Deus? 

Até que ponto o homem é livre de Deus
para escolher pecar e não pecar?

Até que ponto Deus é soberano para fazer
com que o homem peque e não peque?

Até que ponto o homem pode ser livre
sem ferir a soberania de Deus?

Até que ponto Deus é soberano
e o homem livre?

Até que ponto a natureza humana pode determinar
o grau de liberdade do homem em relação a Deus? 

Ou se está a falar de coisas que
se opõem e se anulam? 

Deus é soberano.
E o homem não é livre.
Eis a questão.





A PALAVRA

Onde está o refúgio?
E o socorro no momento
da angústia presente?


Quando o trovão não emudece,
nem a terra se muda,
ou o mar faça-se abrir
na escuridão perturbadora?


O silêncio não é o fim da guerra
nem mesmo a trégua,
em que as vozes se calaram
por esquecer o grito.


Antes, os pensamentos são sepulturas
de palavras mortas,
onde a mente recebeu a pintura
grotesca e rebuscada,
do juízo desfeito em prisão.


A palavra não se media pelo
soprar do vento,
pelas dores do parto,
a mão cheia de sangue,
os bens entregues ao louco,
mas por quem a conhecesse.


Inclinem-se os ouvidos,
fecha-se a porta dos lábios,
e os olhos contemplem,
para que laços não amarrem,
nem a alma se parta como
a lenha na lâmina do machado,
e não seja apanhada na rede.


A rocha é a palavra que seus
dedos esculpiram na rocha.


O esconderijo sem fuga.





TEMPO
O tempo não se fatiga,
jamais dorme ou descansa,
nem precisa de auxílio,
não usa bengala ou
se deixa carregar na maca,
ou se lança inerte à cama.

É como o curso d'água
no leito do rio,
a irromper constante,
mesmo caudaloso
a nos apressar,
mesmo minguado
a nos reter.

Onde os passos apressados
não combinam,
onde o estancar teimoso
não pode se partir.

O tempo é uma ponte
que nos leva da fonte
à foz,
as vezes em arroubos,
noutras, complacente,
a escavar barrancos,
erguer trincheiras,
a cortar o sopé do lugar escarpado,
derribar os limites reservados,
separar o barro,
misturar os detritos amontoados.

O tempo carrega montes e vales,
vida e morte,
o perdido e o achado,
o pronto e o inacabado.

Há espaço para o que se foi,
para o que está presente,
e ao que ainda não veio.

É o fluído estanque
na botija,
de onde a torneira jorra,
incapaz de saciar a aridez
do sedento.

Não se pode tê-lo
nem querer mais.
Fartar-se: o sinal de que
o tempo já chegou.

Avidez, pode ser o sinal de
que ele está a fugir.

E não resta mais,
tempo.